sábado, 27 de Dezembro de 2008

E a tarde vai passando.


A suave luz traspaça o vidro e poisa na mesa de madeira gasta pelo tempo. Contorno a cadeira de espaldas e vou para junto da janela. Dali observo o jardim, cujas rosas brancas atribuem uma certa paz ao local, e onde o vento da primavera dança, uma dança alegre, fresca. Do outro lado da sebe está um campo cujo terreno é ocupado por um vasto pomar de maçãs vermelhas. Numa das árvores, um pequeno baloiço baloiça ao sabor da brisa, enquanto que o quente sol confere lucidez aos meus pensamentos. Sou assaltada por um sentimento nostálgico de onde me sai uma respiração túnue de vida. Lembro-me do azul dos olhos e pergunto-me porquê. Relembro com a mente o pouco de recordações que me restam no armário, junto do saquinho de cetim aveludado que contêm conchinhas da praia. Revivo os momentos com todos os sentimentos e emoções que guardei na caixinha de música, juntamente com o beijo. Desce-me pelo rosto uma quente lágrima que me marca a pele e me chega aos lábios frios. Volto costas a janela, ao pomar e ao baloiço, e dirigo-me ao piano. Sento-me no pequeno banquinho almofadado cor de alfazema, cujo tecido mantêm o mesmo aspecto de sempre, e passo a mão de levezinho pelas frias teclas de marfim. Toco uma. Um som agudo faz-se ouvir por toda a sala, e prolonga-se por uns meros instantes, durante os quais do meu corpo se apoderou um longo calafrio, que me percorera a espinha até ao pescoço e aí se fez sentir um pouco mais. Volto-me á janela, mas já é noite. Já o céu adquiriu um tom azul escuro e pequenas luzes alaranjadas destacam-se ao longe. Já é noite e eu não dei conta. Já é noite e não há nem uma lágrima de saudade. Já é noite e a realidade apodera-se de mim: está escuro.

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